CLUBE DOS NÃO ESPECIALISTAS DE VINHO

CLUBE DOS NÃO ESPECIALISTAS DE VINHO
Há alguns anos atrás eram tantos os produtores de vinho que surgiam a todo o momento que alguns profissionais do sector comentavam ironicamente que o único projecto que faltava criar em Portugal era o “clube dos não produtores de vinho”… no entanto, hoje em dia, é mais apropriado dizer que já só falta criar o “clube dos não especialistas de vinho”…

Vem isto a propósito das mais recentes polémicas, entre produtores de eventos (“Summer Wine Party” versus “Sommelier Wine Market” e outros…) e entre jornalistas e críticos de diversas publicações. É que actualmente parecem ser tantos os eventos e tantas as publicações em disputa, que não há polémica que não se inflame.

Uma das mais interessantes características do sector do vinho no nosso país é a elevada quantidade de projectos que existem um pouco por todas as regiões. Isso é algo interessante, enquanto esses mesmos projectos exprimam diversidade e profissionalismo e desde que não sejam apenas um fenómeno de manada… o que infelizmente é tão habitual no nosso país. Diversidade de propostas e de abordagens, sendo uns projectos familiares, outros empresariais, uns de pequena dimensão, outros de grande projecção, uns altamente industrializados, outros extremamente artesanais… fazem falta, mas desde que acrescentem qualidade.

Na realidade, a juzante da produção, desenvolveram-se muitos segmentos de negócio: o negócio dos críticos de vinho; o negócio dos publicistas e o negócio dos jornalistas do vinho; o negócio dos guias de vinhos; o negócio das feiras de vinhos e o negócio dos eventos de vinhos; o negócio dos concursos de vinhos; o negócio do enoturismo e do agro-turismo e por aí em diante… tudo isto representa (na teoria) benefício para a economia e para os consumidores. Mas desde que existam, nestas diferentes áreas, um mínimo de profissionalismo, de qualidade e (já agora…) de ética profissional.

Não é o que acontece, infelizmente. Por exemplo, em grande parte dos eventos, que não param de surgir, a pretexto de tudo e nada, a qualidade das provas está muito longe de poder ser considerada como profissional. Para já não se falar da capacidade de se apresentarem, nestes mesmos eventos, vinhos por profissionais capazes de acrescentarem verdadeiramente algum conhecimento ao consumidor.

Outro exemplo são os guias de vinhos que por aí se vão apresentando, onde não se conseguem vislumbrar critérios de rigor. Muitos desses profissionais, considerados como especialistas, dissimulam a lógica comercial que subjaz às suas apreciações, em função de determinadas “simpatias”. E muitos deles acumulam o papel de “críticos” com a função de consultores, até mesmo junto de produtores. Outros casos há em que os críticos de vinhos começam a produzir e a divulgar o seu próprio vinho… nesses casos, perguntamos: com que objectividade podem criticar um seu concorrente?

Um último exemplo… numa das provas (“cegas”) a que assistimos recentemente num canal fechado de televisão, sendo uma prova comparativa e pontuada, apresentava vinhos de uma mesma região, mas misturando preços diferentes ( …basicamente o mais votado custava o dobro do menos votado… ) e anos de colheita distintos, comparando vinhos Baga da Bairrada com Touriga de Figueira de Castelo Rodrigo. Prova comparativa? De quê?

Podíamos não ficar por este capítulo. De qualquer das formas, é sempre bom pensarmos que, apesar de fazermos parte do clube dos não especialistas, ainda conseguimos distinguir entre um crítico profissional (que ainda os há) e um vendedor de banha da cobra. 

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