QUALIDADE VERSUS QUANTIDADE

QUALIDADE VERSUS QUANTIDADE
Gerir o equilíbrio entre a qualidade e a quantidade é um dos factores mais críticos e mais difíceis para muitos produtores de vinho. 

Falamos de um equilíbrio que irá muito para além da gestão dos stocks, que também é crucial, sobretudo no momento em que se torna necessário esgotar uma colheita porque a próxima deverá ser desde logo lançada, sem se comprometer o nível de qualidade. Não nos esqueçamos que o vinho, não sendo um produto (por agora ...) totalmente industrial, evolui ao longo do tempo, nem sempre da forma mais favorável.

Muitas marcas de vinho já pagaram “o preço do sucesso” quando começaram a privilegiar crescimentos rápidos e grandes volumes em detrimento da qualidade. É uma situação mais frequentemente do que se imagina. Tão frequente como o truque velho a que muitos produtores ainda recorrem e que consiste na colocação de um lote de vinho com qualidade superior, no momento em que se lança uma marca nova, ou nos primeiros engarrafamentos de uma marca que se pretende revitalizar, para, algum tempo depois, se voltarem a colocar lotes de qualidade inferior, vendendo grandes volumes.

A tentação é grande… quando o produtor começa a ter uma marca muito procurada no mercado, na prática tem duas alternativas: ou mantém um nível de qualidade invariável e num patamar semelhante ao que os consumidores foram habituados, mas rateando stocks e gerindo o preço, para que não haja uma especulação exagerada no mercado, ou responde à pressão da procura, comprando uvas e/ou vinhos para aumentar o lote original. Esta última opção é infelizmente em Portugal a mais frequente com muito poucas e honrosas excepções.

Uma dessas excepções chama-se Barca Velha e é o melhor exemplo de como uma estratégia sem concessões, completamente focada num objectivo muito rigoroso de qualidade, pode ser a opção mais certa.

Ora não é fácil manter ao longo dos anos uma estratégia deste tipo, pois sabemos quão grandes foram e são as pressões (internas e externas) para aquela que é actualmente uma das empresas de vinho de referência a nível mundial (a Sogrape) abdicar desse princípio de rigor, em prol de resultados superiores e mais imediatos, no que se refere ao retorno das vendas por meio do aumento de volumes. Há pois que reconhecer a coerência exemplar dos accionistas da Sogrape, que souberam manter consistentemente a estratégia do Barca Velha, consolidando o seu produto como uma referência cimeira no mercado.

O mesmo infelizmente não se pode dizer da maior parte das instituições que deviam incentivar a diferenciação e a estratégia de qualidade no país. Sem esse foco a imagem dos vinhos de Portugal nunca se conseguirá consolidar. Estamos a falar claramente da estratégia das CVR e dos institutos que supervisionam as classificações e os designativos de qualidade de todos os vinhos que são a todo o momento colocados no mercado. De facto parece que estas instituições estão muito mais focadas em justificar as suas estruturas e a sua burocracia do que apostar num conceito e imagem exigentes e rigorosos de qualidade. 

1 Comentários

    • Avatar
      Antonio Rodrigues
      Abr 19, 2017

      Concordo plenamente

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