O INSUSTENTÁVEL PRESENTE DA UVA – PARTE I

O INSUSTENTÁVEL PRESENTE DA UVA – PARTE I
O princípio da sustentabilidade é simples e por isso muito poderoso: criar condições para que o uso que fazemos dos recursos naturais, na satisfação das nossas necessidades presentes, não possa vir a comprometer a satisfação das necessidades das gerações futuras.

Paradoxalmente, ao ter-se transformado num grande e apelativo tema de marketing, esta ideia de sustentabilidade tem vindo a perder a sua capacidade para nos ajudar a ultrapassar os desafios enormes que já hoje nos colocam as alterações climáticas.

Porquê? Porque é necessário criar soluções para intervir já quanto aos efeitos do aquecimento global causados por comportamentos de gerações passadas e presentes. Muito para além da imagem de altruísmo que o marketing da sustentabilidade consegue comunicar e associar às marcas ...

Segundo a OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho), o que explicou a queda em 2016 da produção mundial de vinho em 5% foram as alterações climáticas.

O director geral da OIV, Jean-Marie Aurand, afirmou mesmo que “com o aquecimento global, estamos a assistir a alterações climáticas cada vez mais frequentes cujos efeitos se irão manter em grande escala”. E alertou para o facto de que, no decorrer do presente ano de 2017, chuvas intensas são novamente esperadas nas regiões sul americanas, incluindo Chile e Argentina, devido aos efeitos do conhecido fenómeno El Nino.

Um exemplo concreto foi o que se passou na última vindima em Portugal, a qual foi condicionada, tanto pelas chuvas tardias de Maio, como pela intensidade fora do normal das temperaturas e das excepcionalmente elevadas radiações UV-B.

Assim, após um ataque de míldio, que afectou a floração, em muitas regiões, observou-se uma maturação irregular das uvas, devido às limitações no processo de fotossíntese, provocadas por essa mesma intensidade e aumento das temperaturas médias no verão, gerando o stress hidríco das videiras, em muitas regiões.

As mudanças climáticas e o aquecimento global são dos maiores desafios que se colocam à viticultura actual. E a toda a agricultura, sendo necessário muito mais do que um designado “plano de sustentabilidade”.
 
No passado recente, muitos vinhos melhoraram a sua qualidade devido ao aumento das temperaturas médias, sobretudo nas regiões mais atlânticas. Em contrapartida, a falta de água tem provocado a diminuição do rendimento nas vinhas.
 
Se a tendência de aquecimento se mantiver (ainda há dúvidas?) será necessário que os viticultores adoptem rapidamente medidas para continuarem a produzir vinhos de qualidade alta a preços aceitáveis, num cenário ainda mais quente que o atual. Entre outras opções, a utilização de novos clones adaptados a estas condições mais severas será fundamental para que a nossa viticultura seja não só mais sustentável, mas além disso com um custo mais baixo. Desde que esses clones não venham a afectar a tipicidade, mas ... será que alguém está a estudar isto?
 
A irrigação é uma das formas de evitar os efeitos prejudiciais do aumento da temperatura. No entanto, não pode ser considerada, a longo prazo, como primeira opção, se o objectivo for adaptar a vinha à falta de água.

Além disso, a irrigação tem um elevado custo económico, ambiental e social. Quando a água começa a escassear, a irrigação de uma planta resistente à seca deixa de ser a prioridade.

Para já não falar que a irrigação deposita sais, areias e outros constituintes nos solos da vinha, correndo-se o risco da salinização.

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